Medicina

Em busca do esqueleto

Crônica publicada em 06 de fevereiro de 1999  

Por Moacyr Scliar 14/09/2017 - 03h00min · Atualizada em 14/09/2017 03h00min
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 Médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre em 1937 e faleceu na mesma cidade em 2011. Autor de romances, ensaios e livros de crônicas, Scliar colaborou com Zero Hora por mais de 30 anos. 

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Dentro de alguns dias, os calouros da Medicina, aprovados nos vestibulares de todo o país, estarão começando seu curso. E o começarão por aquela disciplina básica, que introduz ao conhecimento do corpo humano: a anatomia. Ou seja, terão de dissecar cadáveres. É lógico, mas é perturbador. Florencio Escardó, famoso pediatra uruguaio, apontava a ironia que é iniciar a formação médica por aquilo que representa justamente o fracasso da medicina, o corpo morto.

Bem, mas antes do cadáver vem o esqueleto. Que não é tão sinistro assim. Esqueletos freqüentemente aparecem em comédias de televisão, por exemplo. E as caveiras que os norte-americanos usam no Halloween, e os mexicanos, nos Finados (as "calaveras"), fazem parte de clássicas celebrações em que, assobiando no escuro, brincamos com a idéia da morte.

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Durante muito tempo, a anatomia humana, o esqueleto aí incluído, foi uma abstração para os doutores. Galeno, por exemplo, um grande médico da antigüidade, não sabia quantos ossos teria o corpo: "mais de 200", escreveu, à guisa de palpite. A tradição judaico-cristã proibia a dissecção, o que só começou a acontecer na modernidade. E aí surgiu uma espécie de fascínio com o esqueleto. Todas as escolas médicas tinham de ter um. Não: todos os colégios tinham de ter um. E aí surgiram curiosas histórias envolvendo esqueletos. Como aquela envolvendo John Hunter e o gigante irlandês.

Hunter, famoso médico escocês do século 18, era o protótipo do maluco genial: grande cirurgião, grande investigador - e um obcecado pela anatomia: na sua mansão em Londres, havia um verdadeiro zôo de animais selvagens que ele estudava e dissecava depois de mortos (uma vez dois leopardos fugiram dali, causando pânico na vizinhança). Naquela época, fazia sensação na capital inglesa um gigante irlandês (cerca de dois metros e meio) chamado Charles Byrne e que, como era hábito então, era exibido ao público. Em pouco tempo, contudo, Byrne contraiu tuberculose e logo estava agonizando.

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Quando Hunter soube disto, uma idéia lhe ocorreu: apossar-se do esqueleto do infeliz. Byrne soube disto e, aterrorizado, pediu a seus amigos que seu corpo fosse atirado ao mar, mas não entregue ao cirurgião. Confiante de que seu desejo seria atendido, faleceu.

O esperto Hunter, contudo, subornou o agente funerário. O féretro seguiu até o cais, mas lá os caixões foram trocados. Hunter recebeu o corpo, do qual rapidamente extraiu o esqueleto, que ficou em exibição em seu consultório. O caixão que foi jogado ao mar continha pedras.

Para a família não fez muita diferença. Mas, para o progresso médico, também não. Se a história prova alguma coisa é que os doutores, como todo o mundo, têm suas obsessões. E, às vezes, farão qualquer coisa para satisfazê-las.

 Confira a seleção de crônicas publicadas por Scliar em Zero Hora:
- 26/03/2000: "Quem és tu, porto-alegrense?"
- 14/09/1997: "Sobre centauros" 
- 04/11/1995: "Literatura e medicina, 12 obras inesquecíveis"
- 25/09/1995: "É o ano da paz?"
- 09/01/2000: "As sete catástrofes que nunca existiram"
- 14/11/1999:"Os livros de cabeceira"
- 22/02/2003: "Um anêmico famoso"
- 16/03/1996: "Os dilemas do povo do livro"
- 23/01/2000: "Um intérprete, por favor"
- 22/02/2003: "O que a literatura tem a dizer sobre a guerra"
- 31/05/2003: "Literatura como tratamento"
- 19/10/1996: "A língua do país chamado memória"
- 06/02/2000: "A tribo dos insones"
-15/06/2003: "Um dia, um livro"
- 27/09/2008: "A doença de Machado de Assis"
-20/08/1997: "Médicos e monstros"
- 20/02/2000:"A invenção da praia"
-06/11/2007: "Ler faz bem à saúde"
-19/04/1997: "O ferrão da morte"
-30/11/1997:"Os estranhos caminhos da história"
-05/03/2000: "A gloriosa seita dos caminhantes"
- 08/11/2008: "A Bíblia como literatura"
- 21/03/1998: "Urgência: a visão do paciente e a visão do médico"
- 30/04/1998: "Uma cálida noite de outono de 48"
-16/04/2000:"A imagem viva do Brasil"
- 23/03/1997:" O analista do Brasil"

 Leia também:
Carta da editora: "Scliar, nos bastidores"
Moacyr Scliar, 80 anos. O que fica de sua obra
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