Comportamento

Não pare de dizer até acreditar

Existe um mecanismo no cérebro que o leva a crer no que é repetido

Por David Coimbra 13/09/2017 - 21h20min · Atualizada em 13/09/2017 21h20min
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A palavra fere e a palavra cura. Alguns homens descobriram, pelo menos em parte, essa capacidade que a palavra tem de fazer o bem ou de fazer o mal e até de alterar a realidade.

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Freud foi um deles. A psicanálise nada mais é do que a cura pela palavra.

A palavra está no centro de todas as religiões. Quando você faz uma oração, não está falando apenas com um deus ou um santo, está falando consigo mesmo. Não por acaso, os sacerdotes pregam que as orações precisam ter "força". Ou seja: você precisa acreditar na sua palavra. Minhas preces serão atendidas se eu usar a palavra corretamente.

Escrevi o verbo "acreditar". Não existe religião sem crença, sem fé, e a fé só é alcançada pela repetição de mantras, de rezas, de fórmulas que, supostamente, vão comover a divindade. Na verdade, as fórmulas são repetidas para convencer a quem as repete.

A fé alimenta-se da palavra. E não precisa ser a fé em um deus. Pode ser em si mesmo. O grande homem sempre acredita em si mesmo.

Um dos maiores homens de todos os tempos, Júlio César, nutria sólida fé em sua própria sorte. Uma vez, ele teve de atravessar o Adriático em um barco pequeno para se reunir ao grosso das suas legiões, que aguardavam na outra margem. O mar estava proceloso como se Irma furacão lhe tivesse lambido as ondas. Os remadores, de olhos arregalados, começaram a rezar para Júpiter. César, sorrindo, acalmou-os:

– Nada temam. Lembrem-se de que vocês conduzem César e sua fortuna.

Acabou sendo jogado pelas ondas nos recifes, mas continuou crendo na sorte.

Tamanha confiança faz diferença na vida de um homem. Porque ele acredita nele mesmo, sim, mas também porque os outros acabam acreditando nele. 

É o princípio da propaganda. Você fica repetindo "eu sou bom, eu sou bom, eu sou bom" e as outras pessoas pensam: "Ele deve ser bom, ou não diria tanto isso".

A propaganda, como as religiões e a psicanálise, igualmente se baseia no uso da palavra para desenvolvimento da fé.

Não é incrível essa tendência que o ser humano tem de acreditar no que é repetido muitas vezes? Não é a qualidade que importa, é a quantidade. Como exatamente funciona esse mecanismo? Que chave é virada no cérebro para que uma pessoa comece a acreditar em algo, ainda que a realidade aponte noutra direção?

No Brasil, petistas têm empregado com excelência essa estratégia da repetição extenuante para alterar a realidade. Dilma sofreu impeachment depois de longo processo absolutamente constitucional, com chancela do Legislativo, do Judiciário e do povo nas ruas, mas os petistas nunca pararam de repetir, como crianças brigonas:

– É golpe. É golpeégolpeégolpeégolpeégolpeégolpeégolpeégolpeégolpe!

Agora, está mais do que provado que Lula manteve relacionamento promíscuo com empreiteiros durante e depois do seu governo. Pior: os escândalos das gestões petistas borbulham esgoto afora por todos os lados, não há setor dos governos de Lula e Dilma que não esteja apodrecido em irregularidades. Mas os crentes repetem, como zumbis:

– Não há provas... Não há provas... Não há provas...

Ontem, algumas centenas foram a Curitiba para apoiar Lula, ainda que seja acachapante sua culpa em tudo de que é acusado. É admirável, porque deixou de ser um processo de convencimento alheio. Os petistas, como os crentes, convencem a si mesmos com a repetição do seu mantra.

Mas, nos últimos tempos, surgiu uma terrível novidade: uma superdireita, representada pelo MBL, adotou métodos idênticos aos do PT. Igual virulência, igual malícia e igual estratégia de propaganda pela repetição de uma mentira reta ou de uma verdade retorcida.

O MBL atirando de um lado, o PT atirando de outro; nós entre eles, agachando-nos para não levar bala. O que será de nós?

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