As vocalistas trans Raquel Virgínia e Assucena Assucena
De volta para brilhar 

Com disco novo na praça, As Bahias e a Cozinha Mineira realizam um aguardado show nesta quarta no Theatro São Pedro

Na apresentação, parte da programação do 24º Porto Alegre Em Cena, devem aparecer apenas duas das 10 canções do disco "Bixa"

Por Rafael Balsemão 12/09/2017 - 17h41min · Atualizada em 12/09/2017 17h41min
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Dois anos depois de surgir na cena musical com o elogiado Mulher, o grupo As Bahias e a Cozinha Mineira lançou, no último dia 1º, Bixa. O novo trabalho da trupe liderada pelas vocalistas trans Assucena Assucena e Raquel Virgínia e pelo guitarrista Rafael Acerbi aposta agora no pop eletrônico e dançante.

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Se o foco do álbum de estreia era o feminino, em que negras, pobres e transexuais eram as protagonistas, em Bixa a "banda percorre os dois lados de uma só esfera, a humanização e a animalização, para mostrar o que há de animalesco no humano e o que pode ser enxergado enquanto narrativa no animal", diz o material de divulgação do disco. Para compor este universo, foram chamados o produtor Daniel Ganjaman e o baixista Marcelo Cabral, conhecidos por suas contribuições para artistas como Criolo e Elza Soares.

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Se engana, entretanto, quem pensa que As Bahias optaram por um caminho sem riscos nesta nova empreitada com pegada mais popular. Bixa volta no tempo 40 anos e busca inspiração em Bicho (1977), de Caetano Veloso. A referência é direta nos nomes de canções como Urubu Coruja, Coruja Urubu e Pica-Pau, um samba sobre "dois pica-paus se amando no pico de um pau-brasil". Para falar de diversidade, a ironia, uma marca deste álbum, ganha força.

No show que será apresentado nesta quarta-feira, às 21h, no Theatro São Pedro, dentro da programação do 24º Porto Alegre Em Cena, devem aparecer – uma lástima – apenas duas das 10 canções de Bixa: as dançantes Um Doido Caso, o primeiro single do álbum, e Dama da Night, uma referência explícita à vida noturna de São Paulo: "Sou diva, sou diva / A Pauliceia desvairada é meu site / Sou diva, sou diva / Artilharia da pesada, rímel, lápis com batom".

As baladas Universo e Tendão de Aquiles, as duas que mais lembram as canções de Mulher, o reggae Mix e o bolero A Isca têm poucas chances de aparecer no set list. É o caso também de Tez, na qual a crítica social vem forte: "Quero provar do teu corpo a tessitura / Mas sabem que aí eles ditam a postura / Para impedir o meu desejo pela sua tez".

O protesto, entretanto, deve dar as caras em forma de discurso na apresentação desta noite. Em sua última passagem pela Capital com As Bahias, Raquel Virgínia, em meio à empolgação do público no bar Ocidente, discursou. Após receber uma salva de palmas, a artista pediu aos presentes que respeitassem as mulheres trans não apenas quando estiverem brilhando no palco. Mas também no dia a dia, na fila do banco, na padaria, no supermercado, lugares onde o preconceito, infelizmente, ainda impera. 

AS BAHIAS E A COZINHA MINEIRA
Theatro São Pedro (Praça Marechal Deodoro, s/nº).
Quarta-feira (13), às 21h.

ENTREVISTA RAFAEL ACERBI  / GUITARRISTA
(Por
Fabiano Moraes / Especial)

Vocês já estão em encerramento de turnê. Como será o show desta quarta (13) no Theatro São Pedro?
Sim, estamos encerrando os shows com as músicas do trabalho anterior. Foram mais de 120 apresentações até agora. Para o show aí em Porto Alegre estaremos com a banda completa e levaremos alguns instrumentos a mais, uns sintetizadores também. Teremos isso para poder executar as músicas do trabalho novo, que tem uma sonoridade mais pop, algo mais anos 1980. A nossa intenção é tocar duas músicas do disco Bixa.

Como foi o processo de criação e produção do novo disco?
A Assucena e a Raquel são as compositoras. As músicas são delas. Neste disco, fizemos uma pré-produção de seis meses antes de entrar no estúdio. Foi um processo muito intenso, já que a estética pop pode ser algo muito complexo.

Bixatem a mão dos produtores Daniel Ganjaman eMarceloCabral. Como foi esse encontro e qual a influência deles no resultado final?
Já conhecíamos o trabalho deles e foi um encontro muito rico, uma grande troca de experiências. Trabalhar com esses dois foi muito importante para a banda e para o disco. A produção deles trouxe esse mergulho na MPB e essa leitura mais contemporânea também, com timbres e sonoridades diferentes.

Há uma espécie de linha evolutiva sonora em relação ao primeiro disco e esse?Sem dúvida. O nosso primeiro trabalho é mais anos 1970, tem muitos tons do movimento tropicalista, coisas que remetem a Caetano Veloso, Gal Costa. O tropicalismo deu o tom principal no disco Mulher. Curioso que, durante o processo de trabalho do primeiro álbum, as canções do segundo começaram a aparecer. Mas deixamos as músicas meio guardadas, para o tempo certo.

Você integra uma banda com duas vocalistas trans. Como vê o caso do fechamento de uma exposição de arte em Porto Alegre?(No último domingo, a mostraQueermuseufoi fechada pelo Santander Cultural após protestos de pessoas e movimentos ligados ao MBL.)
Fiquei sabendo pelas redes sociais. Estamos vendo muitos espaços culturais sendo fechados. Estamos em um momento de crise na cultura, e a corda sempre acaba rompendo para o lado dos artistas. Trabalhamos com duas mulheres trans na linha de frente e temos que nos posicionar. Nossa tarefa como banda é dar voz a essas histórias contra o preconceito. 

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