À beira do Guaíba

Obra de Niemeyer em homenagem a Prestes inaugura em outubro em Porto Alegre

Quase três décadas depois de vereadores autorizarem doação de terreno, memorial do líder comunista será aberto em 28 de outubro

Por Jéssica Rebeca Weber
12/09/2017 - 13h58min
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Memorial tem um acervo de 135 fotos, cedido pela filha de Prestes
Memorial tem um acervo de 135 fotos, cedido pela filha de Prestes Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

Quase duas décadas depois de lançada sua pedra fundamental, a primeira obra de Oscar Niemeyer em Porto Alegre agora tem data marcada para ser aberta ao público. O Memorial Luiz Carlos Prestes será inaugurado no dia 28 de outubro, dia do início da marcha que originou a Coluna Prestes, há 93 anos.

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A edificação em homenagem ao político e líder comunista, que nasceu em 1898 em Porto Alegre e morreu em 1990 no Rio de Janeiro, foi erguida em área cedida pela prefeitura na Avenida Edvaldo Pereira Paiva, próximo ao Guaíba — a Câmara Municipal aprovou a doação logo após a morte de Prestes. Se em 1998 a pedra fundamental foi lançada, o acordo que possibilitou a construção demorou mais uma década para ser firmado. Em 2008, a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) recebeu 50% do terreno para construir sua sede ali e se comprometeu a executar a obra do memorial — investiu cerca de R$ 12 milhões na obra.  

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— Nos últimos anos, estamos trabalhando nos projetos complementares: o projeto paisagístico, de iluminação, de ar-condicionado e painel de imagens, que ficou pronto em agosto — explica Edson dos Santos, vice-presidente da Associação Memorial Luiz Carlos Prestes.

 PORTO ALEGRE - BRASIL - Memorial Luiz Carlos Prestes. (FOTO LAURO ALVES)
De fora, memorial, fechado em vidro, lembra uma naveFoto: Lauro Alves / Agencia RBS

Amigo e fã de Prestes — Niemeyer chegou a abrigar o político em seu apartamento — o arquiteto apostou na leveza para a obra de aproximadamente 700 m² em Porto Alegre. Paulo Sergio Niemeyer, que criou o projeto com o bisavô, ressalta a "pureza e simplicidade ímpares" do prédio. Fechada com vidro, a edificação circular lembra uma nave flutuando, observa o arquiteto.

— A estrutura muito simples faz uma obra super complexa. A beleza não está no caro, no rebuscado — afirma.

Dentro do memorial, Niemeyer criou uma linha do tempo da vida de Prestes, contada nas curvas e retas de uma parede vermelha — cor inspirada no ideário comunista. Na parte em que se contextualiza os nove anos de prisão do político, o vermelho transforma-se em preto. A parede leva os visitantes a um pequeno auditório, com 25 lugares, onde devem ser exibidos vídeos sobre a vida de Prestes.

O acervo de 135 fotografias espalhadas pelo memorial foi cedido por Anita Leocádia Prestes, filha do político. A foto do líder buscando no Aeroporto Santos Dumont a primogênita, exilada no México durante o Estado Novo, é uma das exibidas. Tratava-se do primeiro encontro de Prestes com a menina, nascida em uma prisão da Alemanha nazista — sua mãe, Olga Benário, foi morta em câmara de gás. O memorial ainda ostenta registros de Prestes com personalidades como Pablo Neruda e Jorge Amado em um comício no Pacaembu, em 1945, e uma foto com Fidel Castro em Havana, em 1985. 

 PORTO ALEGRE - BRASIL - Memorial Luiz Carlos Prestes. (FOTO LAURO ALVES)
Prestes ao lado de Fidel Castro, em Havana Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

Um segundo ambiente, amplo e também marcado pelas curvas vermelhas projetadas por Niemeyer, deve ser utilizado para exposições itinerantes que dialoguem com o tripé do memorial, que homenageia o líder patriota, revolucionário e comunista, segundo Edson. 

— Serão recebidos eventos que falem, por exemplo, de lutas sociais, desigualdade, movimentos sindical, popular, de anistia, de solidariedade intenacional — contextualiza Edson. — Não é um espaço fechado para comunistas, mas não vamos fazer um palanque para provocadores. 

A Associação Memorial Luiz Carlos Prestes ainda não definiu detalhes da programação da inauguração. Edson deseja promover outros outros eventos no espaço já antes da inauguração — um tipo de "esquenta" para difundir a data. Ainda não há confirmação das atividades. 

 PORTO ALEGRE - BRASIL - Memorial Luiz Carlos Prestes. (FOTO LAURO ALVES)
Ambiente receberá exposições itinerantesFoto: Lauro Alves / Agencia RBS

Homenagem já foi alvo de protestos 

O memorial erguido em homenagem a Luiz Carlos Prestes não é unanimidade. No começo do ano, o vereador Wambert Di Lorenzo (Pros) apresentou na Câmara Municipal um projeto propondo que o prédio projetado por Niemeyer passe a abrigar o Museu da História e da Cultura do Povo Negro. A proposta não avançou muito desde então — ainda aguarda parecer da Comissão de Constituição e Justiça na Casa e não tem data para ir à votação em plenário. 

Wambert argumenta que é "insustentável" homenagear um homem "desertor, traidor da pátria, que se aliou às forças da União Soviética". No seu projeto, defende que, na Coluna Prestes, ele saqueou e destruiu diversas propriedades, deixando um rastro de morte e destruição. Além disso, critica a deferência ao comunismo:

— É uma aberração. Como vou homenagear uma ideologia carniceira, que matou mais de 70 milhões de pessoas, que faz Hitler parecer uma bandeirante?

Escritor e ex-deputado liberal no Estado, Percival Puggina considera ser "uma pena que a cidade abrigue tão vistosa homenagem a esse mau cidadão, fiel a Moscou e infiel a sua pátria". Para ele, doação do terreno pela prefeitura foi um "disparate coletivo, infelizmente sacramentado pelos vereadores da época".

— A Câmara, nesse caso, errou o prego e acertou na ferradura. Terreno bom, em área nobre, verdadeiro latifúndio urbano, posteriormente parcialmente transacionado com a FGF em troca da construção e manutenção do memorial. Uma operação exótica, com um bem público — critica.

Edson dos Santos destaca que "tem absoluta tranquilidade" em dizer que o projeto de Wambert está equivocado e não deve prosperar:

— Em primeiro lugar, não tem dinheiro público aqui. Segundo, o prédio é concebido por Niemeyer para homenagear o Prestes, não tem como fazer homenagem a outra figura ou movimento. O conceito do memorial foi feito para isso.

Ele defende que o comunismo "libertou a humanidade do Fascismo e do Nazismo", ressaltando o papel da União Soviética na II Guerra Mundial. Sobre a Coluna Prestes, destacou que o movimento teve como objetivo "denunciar as condições de vida do povo e lutar pela democracia", acrescentando: 

— Evidente que a Coluna pode ter em seu interior algum tipo de problema manifestado pelo soldado ou quem quer que seja. Mas nunca o Prestes consentiu qualquer tipo de arbitrariedade.

 PORTO ALEGRE - BRASIL - Memorial Luiz Carlos Prestes. (FOTO LAURO ALVES)
Foto: Lauro Alves / Agencia RBS


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